domingo, 24 de julho de 2011

As penúrias da alma


Desacreditou das coisas,das pessoas e do amor,sobretudo.Já não acreditava nas palavras e na veemência dos sorrisos.Afastou-se de tudo e de todos e passou a trilhar um caminho obscuro e apedrejado.
Chorava em silêncio e afastava as pessoas com o mais brutal dos sentimentos: a indiferença. Eram indiferentes os toques, os sorrisos e os abraços. Lembro-me, com clareza das tantas e tantas vezes que vi aquela pele negra atravessar as ruas daquela cidade tão clara, como se fosse uma ponte que daria ao inferno. Inferno construído por ele, galgado degrau por degrau pela ausência de paz.De certo,tinha algum transtorno,bipolaridade,talvez,ou quem sabe uma certa ausência de amor próprio.Sim,amor próprio,é o que muitas vezes faltava àquele ser auto,de olhar negro e sombrio.Usava paletó preto e um chapéu que parecia ser feito de couro,mas nisso eu não prestei muita atenção.
Não sei ao certo, o tipo de pessoa que se esconde por trás daquela máscara, mas desconfio que seja alguém de coração puro,um tanto calejado,mas puro.Vez em quando,o encontro na cafeteria ,aquela lá da esquina onde o vento parece fazer a curva;sempre só,de cara amarrada e lendo um livro que parece não findar nunca.Um dia,tomei coragem e me aproximei,perguntei o que estava lendo e ele me respondeu que lia almas.Almas?-perguntei. Ele balançou a cabeça de forma afirmativa, mas sequer me olhou nos olhos.Afastei-me sem fazer outras perguntas e continuei a tomar meu café que já transbordara pela xícara e molhara a toalha que recobria a mesa.
Passei a encontrá-lo quase todos os dias na mesma cafeteria, lendo o mesmo livro e vestindo o mesmo paletó preto. Certa vez,saiu apressado deixando escorregar da pasta o livro,que por tantas vezes me deixou curiosa.Saí correndo,tentando alcançar o moço,mas ele desaparecera ao atravessar a esquina.Eu,de livro na mão,que por sinal tinha uma capa muito bonita,o abri.De inicio tinha escrito assim:
"Não pretendemos que as coisas mudem se sempre fazemos o mesmo. A crise é a melhor benção que pode ocorrer com as pessoas e países, porque a crise traz progressos. A criatividade nasce da angústia, como o dia nasce da noite escura. É na crise que nascem as invenções, os descobrimentos e as grandes estratégias. Quem supera a crise, supera a si mesmo sem ficar superado. Quem atribui à crise seus fracassos e penúrias, violenta seu próprio talento e respeita mais aos problemas do que as soluções. A verdadeira crise é a crise da incompetência. O inconveniente das pessoas e dos países é a esperança de encontrar as saídas e soluções fáceis. Sem crise não há desafios, sem desafios, a vida é uma rotina, uma lenta agonia. Sem crise não há mérito. É na crise que se aflora o melhor de cada um. Falar de crise é promovê-la, e calar-se sobre ela é exaltar o conformismo. Em vez disso, trabalhemos duro. Acabemos de uma vez com a única crise ameaçadora, que é a tragédia de não querer lutar para superá-la". (Albert Einstein)
Então,conclui,que aquele homem era uma espécie de anjo em crise,a buscar a solução para os seus fracassos epenúrias da alma.



Leiliane Albuquerque

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