domingo, 24 de julho de 2011

Eu incerto

Assim doce,meiga,pura,louca,frenética,patética,ridícula.Assim avanços e retrocessos,quedas,ascensão.
Assim menina-moleca-mulher,anjo,demônio,céu e inferno.
Extravio,ponto certo,erro e perdição.
Afoita,retraida,plausivel,destroçada.Mistério,segredo,confissão.
A linha tênue entre o tudo e o nada.
Assim,eu incerto.




Leiliane Albuquerque

Sequestro


...Hoje é dia de resgate.A porta já foi aberta.é só sair.

(Fábio de Melo)





Percebi,então,que por vezes fui sequestrada e sequestradora.
Me perdi na vastidão do meu ser e me prendi no cativeiro que eu mesma construi.Na busca incessante do acerto,errei.
É tão comum vivenciarmos o papel de sequestradores .Mais comum ainda é sermos sequestrados.Um sequestro velado ou explicito,daqueles que vai nos roubando aos poucos.Dia-a-dia,um pouquinho de cada vez.Um dia o sorriso,no outro a lágrima,o querer ,o não querer.O mais interessante é que muitas das vezes somos nós que nos sequestramos,não precisamos de segundos ou terceiros para nos distanciarmos de nós.
Esquecemos de ser ponte,e passamos a ser apenas muralha.E o que poderia ser travessia torna-se cativeiro.Acorrentados em nós mesmos,com as chaves mas sem ter a atitude de pega-las e abrir o cadeado.E vamos vivendo assim,acomodados,nos privando do direito de viver.Acorrentando,aprisionando,esquecendo de ser ponte,luz,abrigo.
Ao ler "Quem me roubou de mim?",do padre Fábio de Melo descobri que "Há pessoas que nos roubam...Há pessoas que nos devolvem."é interessante como nos deixamos levar,sem perceber e quando atentamos estamos presos.Perdemos a subjetividade,e a máscara passa a ser algo constante em nossa vida;ser o que não somos.


Leiliane Albuquerque

Tango



Sentou-se do lado esquerdo do sofá,cruzou as pernas delicadamente e dedo a dedo foi retirando as luvas brancas de renda francesa.

-champagne,senhorita?
-sim,obrigada!

Pegou a taça de cristal e em goles sutis experimentou a bebida.Uma,duas,três vezes.
Os poucos goles que tomara foi o suficiente para embriagar-se.
Não era Capitu,mas tinha o olhar de "cigana obliqua e dissimulada".Olhos esverdeados,penetrantes.
Passou a noite trocando olhares com um loiro(que nunca vira),que fumada alguns cigarros no espaço aberto do salão.
Levantou-se e tomou a direção do rapaz,que surpreendido deixou o cigarro escorregar por entre os dedos.
...os passos marcados,os olhares fixos,as batidas de uma música atraente,quente,envolvente...
As pernas entrelaçadas não acompanhavam mais o compasso da musica;olharam-se bem de perto e beijaram-se,simplesmente.




Leiliane Albuquerque

As penúrias da alma


Desacreditou das coisas,das pessoas e do amor,sobretudo.Já não acreditava nas palavras e na veemência dos sorrisos.Afastou-se de tudo e de todos e passou a trilhar um caminho obscuro e apedrejado.
Chorava em silêncio e afastava as pessoas com o mais brutal dos sentimentos: a indiferença. Eram indiferentes os toques, os sorrisos e os abraços. Lembro-me, com clareza das tantas e tantas vezes que vi aquela pele negra atravessar as ruas daquela cidade tão clara, como se fosse uma ponte que daria ao inferno. Inferno construído por ele, galgado degrau por degrau pela ausência de paz.De certo,tinha algum transtorno,bipolaridade,talvez,ou quem sabe uma certa ausência de amor próprio.Sim,amor próprio,é o que muitas vezes faltava àquele ser auto,de olhar negro e sombrio.Usava paletó preto e um chapéu que parecia ser feito de couro,mas nisso eu não prestei muita atenção.
Não sei ao certo, o tipo de pessoa que se esconde por trás daquela máscara, mas desconfio que seja alguém de coração puro,um tanto calejado,mas puro.Vez em quando,o encontro na cafeteria ,aquela lá da esquina onde o vento parece fazer a curva;sempre só,de cara amarrada e lendo um livro que parece não findar nunca.Um dia,tomei coragem e me aproximei,perguntei o que estava lendo e ele me respondeu que lia almas.Almas?-perguntei. Ele balançou a cabeça de forma afirmativa, mas sequer me olhou nos olhos.Afastei-me sem fazer outras perguntas e continuei a tomar meu café que já transbordara pela xícara e molhara a toalha que recobria a mesa.
Passei a encontrá-lo quase todos os dias na mesma cafeteria, lendo o mesmo livro e vestindo o mesmo paletó preto. Certa vez,saiu apressado deixando escorregar da pasta o livro,que por tantas vezes me deixou curiosa.Saí correndo,tentando alcançar o moço,mas ele desaparecera ao atravessar a esquina.Eu,de livro na mão,que por sinal tinha uma capa muito bonita,o abri.De inicio tinha escrito assim:
"Não pretendemos que as coisas mudem se sempre fazemos o mesmo. A crise é a melhor benção que pode ocorrer com as pessoas e países, porque a crise traz progressos. A criatividade nasce da angústia, como o dia nasce da noite escura. É na crise que nascem as invenções, os descobrimentos e as grandes estratégias. Quem supera a crise, supera a si mesmo sem ficar superado. Quem atribui à crise seus fracassos e penúrias, violenta seu próprio talento e respeita mais aos problemas do que as soluções. A verdadeira crise é a crise da incompetência. O inconveniente das pessoas e dos países é a esperança de encontrar as saídas e soluções fáceis. Sem crise não há desafios, sem desafios, a vida é uma rotina, uma lenta agonia. Sem crise não há mérito. É na crise que se aflora o melhor de cada um. Falar de crise é promovê-la, e calar-se sobre ela é exaltar o conformismo. Em vez disso, trabalhemos duro. Acabemos de uma vez com a única crise ameaçadora, que é a tragédia de não querer lutar para superá-la". (Albert Einstein)
Então,conclui,que aquele homem era uma espécie de anjo em crise,a buscar a solução para os seus fracassos epenúrias da alma.



Leiliane Albuquerque

Seus olhos


Eram os teus olhos castanhos quem me encantavam,só os teus olhos e nada mais.Não o teu sorriso ou a tua pele de maçã,mas os teus olhos.Adocicados,reluzentes.Não o teu jeito manso de dizer palavras sérias,mas os teus olhos.Os teus olhos me encantavam.Me encantavam por que eram mudos e perfeitamente decifráveis.Silenciosos e estupidamente penetráveis.Os teus olhos nos meus eram rimas,poesia.Os teus olhos me diziam palavras mudas,sussurravam dizeres nossos,meus,mais meus do que seus.Olhos...meus,seus...



Leiliane Albuquerque

sábado, 23 de julho de 2011





"Nos outros eu sei onde se abriga o coracão, é no peito; em mim a anatomia ficou toda louca, eu sou todo coracão."
(Maiakovski)










Lê as minhas feições,descodifica os meus segredos como se conhecesse cada linha circular das minhas digitais.Vasculha cada fresta das minhas entranhas como se fosse fácil conhecer o outro por completo.Assim,sem demoras nem urgências,num equilíbrio encantador e frustrante ao mesmo tempo.Tu que és magia e realidade,misto de prazer e agonia,sobressalto da minha ilusão,que ressurgistes das cinzas feito Fénix e reviras minha anatomia, não sabes o que fazes desse pobre coração.Sim,eu sou um coração pungente,sangrando a cada entardecer.



Leiliane Albuquerque